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Glossário

Termos de personalidade, sem jargão

Referência completa do autoconhecimento: os conceitos de medida (traço, faceta, confiabilidade, percentil), os modelos por trás de cada teste, os cientistas que os criaram e as fontes e siglas oficiais, em linguagem simples.

Conceitos e medida

Traço
Tendência estável de sentir, pensar e agir de certo modo, relativamente constante ao longo do tempo e das situações, por oposição a um estado passageiro. Ver no Big Five →
Estado
Condição psicológica momentânea (estar ansioso hoje) que varia com o contexto. Diferente de um traço, que é a tendência duradoura.
Faceta
Subcomponente mais específico de um traço amplo. Ex.: dentro da Extroversão, facetas como assertividade e busca de emoção.
Construto
Conceito abstrato que um teste tenta medir (extroversão, autoestima). Não é observável diretamente; o teste o infere a partir das respostas.
Domínio
Cada grande dimensão de um modelo. No Big Five, os cinco domínios são abertura, conscienciosidade, extroversão, amabilidade e estabilidade emocional.
Autorrelato
Método em que a própria pessoa responde sobre si. Prático e informativo, mas sujeito à autopercepção limitada e a vieses. Ver na metodologia →
Escala Likert
Formato de resposta em graus (de “discordo totalmente” a “concordo totalmente”) que mede intensidade em vez de sim/não. Criada por Rensis Likert (1932).
Item
Cada afirmação ou pergunta de um teste. Vários itens somados estimam um construto com mais estabilidade do que um só.
Confiabilidade teste-reteste
O quanto um teste dá resultados parecidos quando repetido pela mesma pessoa em momentos diferentes. Baixa confiabilidade significa que o rótulo pode mudar sem que a pessoa tenha mudado.
Consistência interna (alfa de Cronbach)
O quanto os itens que medem o mesmo construto concordam entre si. O “alfa” (α) resume isso num número de 0 a 1; acima de 0,70 costuma ser aceitável.
Validade
O quanto um teste realmente mede o que diz medir, e prevê o que deveria prever.
Percentil
Posição relativa a um grupo de referência. Percentil 70 significa pontuar acima de 70% das pessoas daquela amostra, e não “70% de um traço”.
Amostra normativa (norma)
Grupo de referência com que seu resultado é comparado. A interpretação (alto/baixo) depende de quem é essa amostra.
Viés de desejabilidade social
Tendência a responder de forma socialmente aceitável, e não totalmente sincera. É uma das principais distorções do autorrelato.
Aquiescência
Tendência a concordar com as afirmações independentemente do conteúdo. Bons testes misturam itens “diretos” e “reversos” para controlá-la.
Tipo vs. dimensão
Tipo classifica em categorias fechadas (você é A ou B); dimensão mede intensidade num contínuo. A maioria dos traços é dimensional, não categórica. Ver nos 16 tipos →
Autoconhecimento
Processo de observar e compreender os próprios padrões de pensamento, emoção e comportamento. É a finalidade de todos os testes deste site.

Modelos, teorias e testes

Cinco Grandes Fatores (Big Five / OCEAN)
Modelo mais consolidado da psicologia da personalidade: cinco dimensões, que são Abertura, Conscienciosidade, Extroversão, Amabilidade e Estabilidade emocional (o acrônimo OCEAN). Surgiu da análise da linguagem (hipótese lexical). Fazer o teste →
HEXACO
Modelo de seis fatores que acrescenta a dimensão Honestidade-Humildade aos cinco do Big Five. Proposto por Ashton e Lee.
DISC
Modelo de estilos de comportamento em quatro dimensões (Dominância, Influência, Estabilidade e Cautela), derivado da obra de William Moulton Marston (1928), hoje em domínio público. Fazer o teste →
Eneagrama
Sistema de nove tipos centrados em motivações e medos básicos. Popular e útil para reflexão, mas com base empírica fraca: leia como espelho, não como veredito. Fazer o teste →
RIASEC (código de Holland)
Modelo de interesses profissionais em seis áreas (Realista, Investigativo, Artístico, Social, Empreendedor e Convencional) dispostas num hexágono. Base do O*NET Interest Profiler. Fazer o teste →
Teoria dos Valores (Schwartz)
Mapa de dez valores humanos básicos (ex.: autodireção, segurança, benevolência) organizados num círculo em que valores opostos se contradizem. Proposta por Shalom Schwartz (1992). Fazer o teste →
Teoria da Autodeterminação (SDT)
Teoria da motivação de Deci e Ryan centrada em três necessidades psicológicas básicas: autonomia, competência e vínculo (relação). Ver nos Motivadores →
Motivadores (Pink)
Popularização da SDT por Daniel Pink (2009) em três motores da motivação intrínseca: autonomia, maestria e propósito. Fazer o teste →
Inteligência Emocional
Capacidade de perceber, entender, usar e regular emoções, próprias e alheias. Construto formulado por Salovey e Mayer (1990) e popularizado por Daniel Goleman (1995). Fazer o teste →
Tipos psicológicos (Jung)
Base teórica das tipologias de 16 tipos: as dicotomias de Carl Jung (1921), como introversão–extroversão. Inspiram vários testes, sem se confundir com nenhuma marca. Ver nos 16 tipos →
Autoestima (Escala de Rosenberg)
Escala clássica de 10 itens que mede a atitude global positiva ou negativa em relação a si mesmo. Criada por Morris Rosenberg (1965), em domínio público.

Cientistas e autores

Gordon Allport
Psicólogo americano, pioneiro da teoria dos traços; com Odbert (1936) levantou milhares de termos de personalidade na linguagem (hipótese lexical).
Raymond Cattell
Psicólogo que reduziu os traços a 16 fatores (o 16PF), um dos antecedentes do Big Five.
Lewis Goldberg
Psicólogo que consolidou o termo “Big Five” e criou o IPIP, banco aberto de itens de personalidade usado neste site.
Paul Costa e Robert McCrae
Autores do modelo de cinco fatores (FFM) e do inventário NEO, que detalhou os cinco domínios em facetas.
Oliver John
Pesquisador do Big Five e autor do Big Five Inventory (BFI), muito usado em pesquisa.
William Moulton Marston
Psicólogo autor de Emotions of Normal People (1928), obra que originou o modelo de quatro estilos por trás do DISC.
John Holland
Psicólogo vocacional criador do modelo RIASEC de interesses profissionais e do hexágono de Holland.
Shalom Schwartz
Psicólogo social autor da teoria dos valores humanos básicos, validada em dezenas de países.
Edward Deci e Richard Ryan
Criadores da Teoria da Autodeterminação (1985), referência sobre motivação intrínseca e extrínseca.
Daniel Pink
Autor de Drive (2009), que popularizou autonomia, maestria e propósito como motores da motivação.
Morris Rosenberg
Sociólogo autor da Escala de Autoestima de Rosenberg (1965), uma das mais usadas no mundo.
Peter Salovey e John Mayer
Psicólogos que formularam o construto de inteligência emocional (1990) como conjunto de habilidades.
Daniel Goleman
Psicólogo e jornalista que popularizou a inteligência emocional com o livro homônimo (1995).
Carl Gustav Jung
Psiquiatra suíço autor de Tipos Psicológicos (1921); suas dicotomias inspiraram as tipologias de 16 tipos.

Fontes, órgãos e siglas

IPIP
International Personality Item Pool: banco público e gratuito de itens de personalidade (fundado por Lewis Goldberg), fonte de vários itens deste site.
O*NET
Base de dados de ocupações mantida pelo Departamento do Trabalho dos EUA; inclui o Interest Profiler, base do RIASEC.
APA
American Psychological Association, a maior entidade de psicologia dos EUA, referência em padrões de testes e ética.
SATEPSI
Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos do Conselho Federal de Psicologia (Brasil), que aprova quais testes podem ser usados profissionalmente.
CFP
Conselho Federal de Psicologia, o órgão que regula a profissão no Brasil e mantém o SATEPSI.
CRP
Conselho Regional de Psicologia, onde o psicólogo se registra; só profissionais com CRP aplicam testes reconhecidos.
OCEAN
Acrônimo dos cinco fatores em inglês: Openness, Conscientiousness, Extraversion, Agreeableness, Neuroticism.
FFM
Five-Factor Model, outro nome do Big Five, associado ao inventário NEO de Costa e McCrae.
NEO-PI-R
Inventário de personalidade de Costa e McCrae que mede os cinco fatores e as seis facetas de cada um; é a versão revisada do NEO-PI. É proprietário; usamos itens abertos equivalentes do IPIP.
BFI
Big Five Inventory: questionário de 44 itens de Oliver John para medir os cinco fatores; muito usado em pesquisa.
16PF
Questionário dos 16 Fatores de Personalidade, de Raymond Cattell. Antecessor do Big Five, mede 16 traços primários.
SDT
Self-Determination Theory, sigla da Teoria da Autodeterminação, base do teste de Motivadores.
QE / EQ
Quociente Emocional (Emotional Quotient), termo popular para inteligência emocional; útil como metáfora, não como medida exata.
Domínio público
Obras e escalas cujos direitos expiraram ou foram liberados (ex.: Marston 1928, Rosenberg 1965), livres para uso e adaptação.
MBTI®
Instrumento comercial de 16 tipos e marca registrada. Não o usamos nem citamos seus nomes de tipo: este site tem modelos e nomes próprios.

Um resultado destrinchado EXEMPLO ILUSTRATIVO

Um caso fictício, montado para mostrar o termo funcionando. Não são dados de nenhuma pessoa real.

Pegue o verbete percentil e veja o estrago que ele evita. Suponha um domínio medido por 6 itens numa escala Likert de 1 a 5, em que a pessoa marcou 4 em todos. A média é 4,0. Como o piso da escala é 1 e não zero, o percentual da escala sai de (4,0 − 1) ÷ 4 = 75%.

Agora a pergunta que quase todo mundo pula: 75% em relação a quê? A 75% da escala, não das outras pessoas. Se, na amostra normativa, a maioria também marca em torno de 4 nesse domínio (o que é comum em itens socialmente desejáveis), essa pessoa está perto da mediana: percentil 50, mais ou menos. Mesma resposta, dois números bem diferentes: 75 e 50, e só um deles diz “acima da média”.

Os testes deste site mostram percentual da escala, e não percentil, por uma razão honesta: não temos amostra normativa brasileira própria para comparar você com ninguém. Some a isso o viés de desejabilidade social e a aquiescência, e fica claro por que quase todos os nossos textos comparam os seus domínios entre si, em vez de compará-lo com uma população.

Leitura final: quando um resultado disser “75%”, pergunte sempre de que porcentagem se trata. Percentual da escala responde “o quanto você marcou, do mínimo ao máximo possível”; percentil responde “quantas pessoas você superou”. Aqui é sempre o primeiro. É por isso que a leitura mais útil é comparar o seu domínio mais alto com o mais baixo, e não o seu número com o de um amigo, muito menos entre testes diferentes.

Nota do autor

Este glossário existe porque eu me irritei comigo mesmo. Escrevendo as páginas dos testes, eu tropeçava toda hora em “traço”, “faceta”, “construto”: palavras que ou eu explicava de novo em cada página, ou deixava passar como se todo mundo soubesse. Nenhuma das duas saídas prestava. Escrevi as definições com as minhas palavras, ancoradas em fontes abertas, e o critério foi um só: se eu não conseguisse explicar o termo para alguém sem formação em psicologia, o verbete voltava para a mesa. Faltou alguma palavra que te travou em outra página? Manda que eu incluo.

Vinicius Fonseca · Achou algo estranho ou tem uma sugestão? me conte.

Do conceito à prática

Veja esses termos ganharem forma nos testes.

Ver os testes →